Ensejar um debate social, mas não se prender a ele

ofertando a sua audiência um thriller policial inusitado e com ritmo crescente de tensão.

Crítica no blog CLAQUETE

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Sem heróis e sem vilões: debate ensejado por Disparos, e cristalizado na dinâmica entre o policial vivido por Ciocler e o fotógrafo interpretado por Machado, vai além dos rótulos

Crítica – Disparos

 Tensões urbanas

Juliana Reis, diretora de Disparos (Brasil 2012), disse em uma entrevista recente que ajoelha e reza para David Mamet, dramaturgo e cineasta americano, de quem admite influência no ofício de roteirista. Essa influência pode ser sutilmente observada no alinhamento dos conflitos de seu longa de estreia.

Interessa mais uma análise mais aprofundada do tema que enseja, do que a desconstrução de personagens que nunca avançam à superfície. É uma proposta corajosa, se observada junto a outras opções da diretora que tem na elaborada edição o oxigênio de um filme que pulsa um debate complexo sobre violência e tensões urbanas.

Disparos é fruto de um caso verídico que aconteceu com um conhecido da diretora e poderia ganhar ares de ensaio social na mão de um cineasta mais metido a sociólogo (e são muitos no Brasil), mas Juliana Reis percebe o potencial cinematográfico da trama e investe em um suspense com grande vigor estético. Talvez seja essa a grande sensação de seu filme. Ensejar um debate social, mas não se prender a ele. Ofertando a sua audiência um thriller policial inusitado e com ritmo crescente de tensão, embora muito pouco de fato aconteça após a apresentação do conflito central. Mas também não precisaria. O conflito central abastece todo um questionamento paradoxal que parece alimentar as grandes cidades do mundo moderno. O fotógrafo Henrique (Gustavo Machado) é vítima de um assalto e, em um piscar de olhos, se configura no sujeito que negou socorro a uma vítima de atropelamento. Isso porque o motorista de uma caminhonete branca jogou o carro contra os assaltantes (o segundo fugiu machucado) pelo que Henrique classificou de “solidariedade humana”. Juliana Reis quer mais do que relativizar o papel de vítima e, para isso, investe em uma tensa dinâmica entre o cínico inspetor Freire (bela composição de Caco Ciocler) e Henrique. Ela intenciona discutir o alcance e impacto das tensões urbanas e, nesse contexto, a montagem afere ainda mais relevo ao desenho proposto pelo texto de Reis.

Assim como a atuação de Ciocler. Ele encorpa muitíssimo bem alguns dos clichês que rondam a força policial, especialmente no Brasil. No entanto, o ator humaniza seu policial demonstrando que a “falta de seriedade” dele nada mais é do que um artifício desestabilizador para fazer (bem) seu trabalho. Reis tão pouco se interessa em vitimizar Henrique, sujeito pouco simpático e que se sente confortável no papel de vítima (se anuncia como tal inúmeras vezes no decorrer do filme). São construções que acrescem à complexidade que Disparos dispara com seu argumento, mas que não se incumbe de contemporizar. As duas últimas cenas, uma já no decorrer dos créditos, emergem não como falso moralismo, mas como alerta de que nossa sociedade não comporta mais tão facilmente o esquadrinhamento convencional de vítimas e algozes.

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