extremamente cinematográfico, com roteiro que instiga e faz pensar, sem perder o fio condutor do entretenimento

Disparos no site PipocaCult

 

 

 

 

 

por Amanda Aouad

O cinema brasileiro tem nos trazido, cada vez mais, boas surpresas de gênero. Disparos, primeiro longa-metragem de Juliana Reis é um desses bons exemplos de thriller policial instigante, bem feito e com um ritmo que empolga desde a sua primeira cena.

Na verdade, a forma como começa é que é o gancho para nos prender junto a Henrique, um fotógrafo profissional que tenta sair de uma cena do crime, atordoado, catando o seu equipamento e gritando que é, na verdade, a vítima. O que aconteceu e quem forma cada peça dessa história vai nos sendo demonstrado aos poucos, em um suspense bem construído que nos envolve, nos deixa curiosos e nos surpreende em vários momentos.

Disparos é uma crônica social. Uma denúncia ao mundo caótico de medo, aparências e golpes em camadas distintas da sociedade em que vivemos . Ainda há espaço para confiar no próximo? Conseguimos nos sentir seguros em uma grande metrópole como o Rio de Janeiro? Ou a violência urbana conseguiu nos tornar seres assustados ao ponto de julgar por aparências que nem mesmo são tão claras? E a polícia no meio disso tudo? Consegue realizar o seu trabalho honestamente ou já se tornou cínica diante de tanta impunidade?

É impressionante como todos esses questionamentos conseguem ser passados para nós e ao mesmo tempo, não tornar o filme uma tese sociológica. Disparos é extremamente cinematográfico, com um roteiro que instiga e faz pensar, sem deixar perder o fio condutor do entretenimento. A forma como Juliana Reis conta a sua história é envolvente; compramos a ideia da trama e nos deixamos embarcar nela.

A diretora sabe lidar com a linguagem, ainda que a montagem traga algumas escolhas questionáveis, como a tela dividida em alguns momentos. Não que seja inválida, mas por serem esporádicas e em momentos que não deixa muito claro o porquê da escolha ali e não em outras partes, a torna quase uma alegoria exagerada. É interessante ver Guto desesperado no apartamento de Henrique, enquanto o motoqueiro entra na favela com a perna quebrada. Mas, por que temos esse tipo de comparação aí, enquanto algo mais significativo, como Henrique indo reconhecer o garoto no hospital, não? Ou ele na delegacia dando depoimento, enquanto o motorista da camionete chega em casa?

Outro elemento positivo em Disparos é a construção dos personagens. Ainda que haja estereótipos como a noiva neurótica de Henrique, os homossexuais, ou mesmo os policiais, há um cuidado na construção de cada persona que os torna especiais. Aliás, os policiais vividos por Caco Ciocler e Thelmo Fernandes são um ponto alto do filme. Há sutilezas em críticas e ironias muito bem feitas. Desde o filme “Tropa de Elite 3”, que ele está assistindo no computador, passando pelas piadas por estudar para concurso, as divisões na madrugada, os casos que surgem. Até mesmo nos detalhes na parede com os cartazes de procurados que traz entre eles a foto do político Maluf.

E até pelos personagens serem tão bem desenvolvidos, os diálogos são outro destaque do filme. Ágeis, inteligentes, verossímeis, sem didatismo ou frases feitas. Os atores estão à vontade em cena, vivendo cada trama com uma naturalidade que nos envolve. Destaque para o próprio Caco Ciocler que constrói um detetive bastante irônico e para Gustavo Machado que dá ao protagonista Henrique uma humanidade bem dosada diante de tantas malezas que a lente de sua câmera flagra.

Há ritmo em Disparos, um jogo orgânico dividido em capítulos que são como as fases de uma fotografia. O disparo, a exposição, a revelação e a ampliação. Com um tema recorrente como a violência, mas construída por uma óptica diferente, ele nos traz um frescor de novidade. Talvez por ser o toque feminino em um universo tão masculino. Mas, nem por isso, frágil.

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