O problema do cinema nacional é o roteiro.

Entre a poeira dramática e o filme de gênero.
(escrito para a coluna Vida de roteirista, do site da ABRA, em set/2017)

ROTA2017mesa

Há algumas semanas, participei com os companheiros de ABRA Jorge Duran (homenageado especial) e Yoya Wursch de um seminário na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, parte da programação do ROTA – Festival do Roteiro Audiovisual, criação dos alunos e que coincidiu, em 2017, com o 15º aniversário de criação da ECDR. Pequeno parêntese aqui pra celebrar a bio-batalha de Irene Ferraz, verdadeira “guerrilheira” do cinema brasileiro. (https://oglobo.globo.com/rio/encontros-de-domingo-musa-que-virou-diretora-de-escola-de-cinema-12311465)

O tema do seminário e debate já dizia muito e pra bom piadista “O lugar do roteirista” oferecia motes de montão: “na cama!”, disse de cara Yoya; “é lá que eu gosto de escrever”. Duran contra-atacou com aquele seu sotaque charmoso “o lugar de roteirista é na cadeira, pô!”. Lembrei então de uma intromissão do Duran na minha aula, na Darcy mesmo, lá pelos idos de 2007, e mandei a minha linha: “cadeira, não; poltrona. Lugar de roteirista é na poltrona do espectador!

Nesse momento, já estavam nos chamando pra sentar no palco e nossas falas foram partindo dai…

Nos meus 20 minutos, escolhi bater na minha tecla favorita e abordar, não o lugar do roteirista, mas o do roteiro propriamente dito. E citei logo de cara um outro grande professor da Darcy, nosso saudoso José Carlos Avellar, que, diante de uma plateia de iniciados do 1º Encontro de Roteiristas no Centro Cultural da Caixa (2006), ousou declarar que o lugar do roteiro, uma vez o filme pronto, era a cesta de lixo! Rolou um climão, tanto naquela época quanto hoje. Segui tecendo minha recorrente ladainha pretendendo que o lugar do roteiro não se situa nem nas folhas escritas e nem mesmo na tela do filme, e demonstrei por A + B que o roteiro se situa aproximadamente naquele espaço do feixe poeirento e esfumaçado que emana da janelinha da sala do projecionista e vai se ampliando até derramar sua luz retangular na tela do cinema — na verdade, emanava, em tempos pre-digitais. Hoje fica mais difícil ser poético na matéria–

… Porque é nesse lugar, de ligação entre a construção do filme e os sentidos do espectador, que o verdadeiro roteiro acontece…

Tô sempre repetindo: Shakespeare não escreveu em nenhum lugar o desespero que é saber que Julieta não está morta (“ela tá só fingindo!”, temos vontade de gritar) e saber que Romeu não o sabe… “Isso” não está nem escrito e nem mesmo filmado.

Isso” é roteiro: a capacidade de engendrar uma percepção específica ligada aos fatos que relatamos, percepção esta, resultado de nossa eleição e agenciamento, que ocorre dentro na cabeça e do coração (e por que não dizer, na flor da pele) do espectador.

Taí o lugar o roteiro. A verdade é que eu me empolgo muito com tal ideia.

Só que, de repente, chega um novo personagem na nossa cena: Rodrigo Fonseca. Não sei se seria correto introduzi-lo como ex-crítico de cinema convertido pro roteirismo. Eu o encontrava cara a cara pela primeira vez, e não sem alguma apreensão de autor que se recusa a seguir ditames ou … agradar a crítica. Mas uma coisa me saltou aos olhos desconfiados e me faz morder meu próprio dedo: o cara é um apaixonado pelos filmes que devora e que regurgita entre contexto e análise pra plateia por ele completamente capturada (aliás, também de ex-alunos seus). E eu junta, capturada.

Me permito reportar aqui a sua fala (correndo o risco que minhas memória e interpretação me fazem correr), que girou em torno de outra vertente clássica do pensamento cinematográfico brasileiro. Pra ajustar ao nosso leitmotiv, eu diria que na tese de Rodrigo, o lugar do roteiro era o de “problema do cinema nacional”*. E ele se dedicou a uma inspirada defesa do cinema de gênero, como a grande opção de interlocução com o espectador que a nossa ‘nata da nata’, a partir do fim dos anos 70, teria conscientemente decidido assassinar. Ele fez isso inclusive com uma emocionante crítica ao papel da crítica nesse assassinato (nessa hora, eu me rendo ao charme daqueles olhões estranhamente verdes e rodeados de cílios inverossímeis!). Rodrigo condenava nosso cinema a ser punido por seu esnobismo em se recusar a ser fabuloso (no sentido da fábula) e pela obstinação estéril num realismo desprovido de aderência ou com uma inútil pretensão à verdade absoluta.

Ainda tentei rebater com uma outra reflexão: Afinal Dona Flor e seus dois maridos, Mulher Invisível ou todos os Se eu fosse você, são filmes que extrapolaram o realismo e optaram por premissas alguns degraus acima…

… E se, juntando os dois pontos… E se devêssemos nos preocupar mais em permitir em nossas obras espaço para ser ocupado de fato e de direito pelo espectador, permitindo a ele a causalidade, o aristotelismo, o concluir autônomo que o faz melhor compreender o mundo e os seres humanos a sua volta…? E se nossos roteiros falassem demais, contassem tudo tintim por tintim e não permitissem ao espectador ocupar seu lugar de compreendedor do que está sendo contado…?

Desde o dia do seminário não paro de pensar nisso.

Mais uma ocasião que ser professora me deu de aprender.

ROTA2017

Rodrigo Fonseca, a que escreve, Jorge Duran e os organizadores do ROTA Gabriela Liuzzi, Evandro Melo e Carla Perozzo.

PS: *faltou dizer o óbvio: senão oproblema, a solução do cinema nacional certamente passa pelo roteiro.

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