Alison & Alison, versão e realidade em The Affair – spoiler

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Menor pretensão de dar conta desse texto sem cometer spoiler. De antemão, désolée.

Após atravessar 41,5 episódios das 4 temporadas da série The Affair, e faltando 1,5 para ultrapassar o desfecho da história em busca apenas de compreensão, já me sentia familiarizada com o elemento fundamental da estrutura, do formato e do interesse da série: cada episódio relatado duas vezes, segundo sensibilidades e perspectivas de personagens distintos – devidamente anunciados em cartelas sobre fundo preto – e, idealmente, portadores de desejos, interesses e percepções antagônicos.  Em seu protagonismo, a versão do marido prestes a trair sua mulher pela primeira vez em 20 anos de casamento, Noah encenava uma garçonete impetuosa, borderline e mal coberta por uma minissaia, enquanto, na vez de Alison, a dor que carregava pela perda do filho imprimia na tela um mood “qualquer maneira de amor vale a pena” vertiginoso e amoral. E ainda havia aquela pitada de “whodunit” tirado de um filme de detetive para não deixar nenhuma ponta de expectativa solta.  E ainda havia a realidade do real e a do livro, rearranjada por Noah, sob a égide de grandes nomes contemporâneos da literatura americana.

Hal Hartley, outro autor americano, filmou Flirt, com apenas 20 minutos de diálogos, retrabalhado em diversas “versões”. E talvez por esse simples exercício quase tecnico, mergulhei na série ao longo de semanas.

Em que pesem os truques, o bom mesmo era lidar com a velha e boa humanidade dos personagens que se traiam, se odiavam, se vingavam e se perdoavam sucessivamente, sem nenhum deles jamais abrir mão definitivamente do outro. Como em qualquer novelão, mas no melhor estilo e com a virtude de escapar dos maniqueísmos moralizantes, com uma protagonista principal incrivelmente sob pressão.

Constatei, lá na temporada 3, e não sem um certo desconforto, a decisão dos autores de subverter esse pilar, que no entanto eu já sabia corroído pelo fatídico distanciamento dos 4 personagens centrais que não conviviam mais, e por isso não poderiam opor versões sobre os mesmos eventos.

E eis que finalmente se precipita o fim da série, com o anúncio totalmente inesperado da morte da personagem soberana da trama, Alison – pronto! Spoiler consumado.

A informação de sua morte intervém quando estamos na Costa Oeste, seguindo o drama do ex-marido de Alison, Cole, e os mistérios de sua biografia, a horas de fuso horário do que quer que esteja acontecendo de fato na vida de Alison que, da última vez que soubemos dela, sucumbia a crises de pânico e já não se sentia mais capaz de tirar vantagem de sua própria fragilidade para sobreviver.

E um saber difuso se instala por personagens subalternos, assim como pela fachada que Alison criou para si própria, antecipando um verossímil suicídio. Apenas o apaixonado Cole, mais por desespero que outra coisa, se apega a convicção de que ela ainda era capaz de sua própria transformação.

O penúltimo* episódio da série vai então se deitar sobre o que de fato aconteceu com Alison Bailey, se tornando sua versão suprema e definitiva dos fatos. Aliás, não mais versão; mas o que de fato ocorreu.

Só que não.

Essa impressão não dura. Pequenas discrepâncias com fatos reportados previously na autopsia, demonstram que a noite em que Alison morreu chovia; mas na cena que ela própria nos protagoniza, o céu está estrelado. E quando seu namorado, coitadinho, veterano de guerras do golfo e vítima da máquina de estado americano, que envia seus jovens para a morte e para o trauma, chega em sua casa trazendo flores e nos confessa o que a loucura da guerra o fez fazer e tudo o que ele sofreu, Alison dá desconto e perdão. Eles transam ao ar livre, sob o céu que os protege, e se prometem as curas de 12 etapas. Oing.

Só que não.

O episódio começa novamente, portando agora o ponto de vista … da mesma Alison. Como se o autor tivesse perdido a capacidade de oferecer uma realidade única e sensível do mundo e seguisse oferecendo versões não mais dos personagens; agora versões para os espectadores.

Dessa vez, chove canivete. E o namorado veterano traumatizado da guerra, com uma barba por fazer, não traz flores ou mimos mas ameaças em nome de sua própria vulnerabilidade no amor. E ao confessar os crimes perpetrados no sandbox, não há lugar para vulnerabilidade: matou crianças iraquianas porque podia matar.

E, quando confrontado às mentiras que criou, não hesita, porque podia, em matar Alison, jogar seu corpo no mar, limpar a casa de provas o incriminando. Para retornar à sua versão do mundo.

Todo esse texto porque, e perdido entre tantas humanidades dos personagens da série, pela primeira vez em minha vida, encarei no repertório americano o personagem do veterano de guerra americano não ser tratado em vítima traumatizado, mas em assassino puro e simples; porque podia.

E por isso também eu tiro o meu chapéu para The Affair. Sem precisar ir além.

(* o último capítulo ficou reservado para algum final psicanaliticamente feliz e pleno de luz e de sentido de vida, em meio a tanto Thanatos. Mas também, esperar duas revoluções numa narrativa e nenhuma catarse não faria sentido, né?)

Dedico esse post ao Jeremy Pikser, chapa roteirista radical americano que me mostrou tintim por tintim que o anti-belicismo dramatúrgico americano se preocupa mesmo é com o coitadinho veterano da guerra e vítima da máquina de estado que envia seus jovens para a morte e para o trauma.

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