O problema do roteiro brasileiro é a sub-intriga

Desde os anos 80, ouço o bordão: “o problema do cinema brasileiro é o roteiro!”

Em tanto tempo (40 anos! a vida é um sopro…), se fôssemos gente séria, uma indústria audiovisual profissional com um repertório dramatúrgico maduro, já teríamos nos debruçado sobre a questão, e a resolvido.

Mas não. Preferimos nos virar, cada um como pode (quem nunca???), surfar nas ondas das ocasiões e se deixar atacar lá onde dói mais (e onde inviabiliza): Embrafilme, Ministério da Cultura, Lei Rouanet, Ancine, FSA. Vendettas egoicas e brigas de poder burocrático.

E no mais, o problema do cinema brasileiro continua sendo o roteiro.

Outro dia, sai de uma pré-estreia totalmente impressionada pelo valor de produção de um filme que tinha absolutamente tudo – jovens atores incríveis, cenografia de época, figurino, música mega cativante, montagem splish-splash! – pra arrebentar com o boxoffice e colocar toda a família junta na sala escura.

E, por que não dizer, tema e roteiro. As (indeléveis) concessões de enredo eram óbvias, auto-explicativas e… justificáveis, numa sociedade tão polarizada. Assim, ao fim da sessão mega emocionada, com direito a cenas de amizade dentro e fora da tela e a lágrimas comovidas tombáveis pelo patrimônio do intangível nacional, parecia a unanimidade que todos deviam pensar.

Foi o que pensei naquele noite.

E desde então, não paro de pensar no valor da sub-intriga: nas consequências trágicas e irremediáveis de não abrir nossas narrativas para o mundo, e não permitir que o mundo e a história passem por elas (como um sopro) e fazer de nossas histórias espelhos que só refletem narizes e umbigos. Uma história sem pano de fundo, um primeiro plano sem background cria um espectador igualmente desconectado do mundo que o circunda, um público sem empatia e sem limites.

  monalisa

Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica do artista que faz dela um campo enigmático, lugar de pensamentos secretos. (BACHELARD)

No Brasil, nos acostumamos a tratar de nossas paisagens como algo insuportável: pra falar de meio ambiente temos que ser eco-chatos; pra falar de direitos humanos, nos tornamos defensores de assassinos, para sermos humanistas, viramos esquerdopatas. Vermelhos. Bolivarianos (sempre quis perguntar do que exatamente estão xingando alguém que assim o denominam). Cidadãos do mal. E o contraditório de um cinema não engajado vem em forma de varrer pra debaixo do tapete o meio ambiente, os direitos humanos e o Humanismo. Literalmente.

A ausência, dramaturgicamente falando, é algo muito complexo a se construir. Dar a entender que algo existe, mas não está lá onde deveria estar, é totalmente diferente do nada haver, nada existir. Da inexistência. Não mostrar a ditadura militar no segundo plano de uma história de amor passada nos anos 60 e 70 equivale a dizer que ela não existiu. Ou a escravidão, num drama épico do século 19. Ou o aquecimento global, numa ficção científica. E nós, imaginando que para sanar a polarização reinante na sociedade, deixemos de fora das nossas narrativas a ditadura militar; deixemos de lado a questão da escravidão. Deixemos pra lá a evolução da espécie.

Talvez a hora seja de, sem grandes necessidades de fazer filmes “cabeça” para falar da ditadura militar, simplesmente deixar a ditadura militar existir nos panos de fundos das nossas histórias de amor e amizade ou comédias. Deixar o que é ser. E assim transformar nosso cinema em espelho para nos vermos refletidos nele. Sem distorções ou photoshops.

PS: 1) parabéns à Estação Primeira da Mangueira pelo carnaval 2019;

2) a Terra não é plana.

3) noutras palavras sou muito romântica.

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