Conflito e Emoção

O elemento de base

(fragmentos da edição inédita em Português de A DRAMATURGIA, de Yves Lavandier)

Quando consideramos o repertório dramático, nos salta aos olhos a onipresença de um elemento comum à maioria das obras: o conflito. Variado em intensidade, como em natureza, o conflito é o motor da obra dramática, tenha ela dois minutos ou duas horas. É a matéria-prima de base da dramaturgia.

Notaremos que o conflito não é encontrado unicamente na narrativa dramática. Os gêneros literários (mitos, contos, fábulas, contos de fada, romances, etc.) são repletos de elementos conflituosos, seja na forma de lutas, provações e obstáculos ou de problemas diversos, como os perigos, fracassos, medos, infelicidades ou misérias.

SOBRE A MANIFESTAÇÃO DO CONFLITO

Que fique bem claro: a palavra conflito não se refere necessariamente a seres que se desesperam ou se estapeiam. O conflito pode ser interno, sutil, sem que uma manifestação externa venha desvelar sua existência. Um empregado que não tem coragem de pedir aumento ao patrão vive um conflito. A cena, recorrente, aliás, de pancadaria nunca é o que de melhor há em termos de conflito. Isso é bastante evidente em 8Miles – Rua das Ilusões: a pequena Lily (Chloe Greefield), de cinco anos, assiste, horrorizada, ao espancamento de seu irmão mais velho (Eminem) – seu transtorno é mais intenso do que o conflito que presencia. Em Warriors, os soldados britânicos da ONU, em missão na ex-Iugoslávia, que assistem, impotentes, às atrocidades cometidas pelas etnias beligerantes, também vivem um conflito, que lhes deixará marcas.

Em Cyrano de Bergerac (Ato II/ Cena 6), Cyrano extasia-se com a novidade de Roxane estar apaixonada, certo de ser o felizardo. Sem nada dizer, ele suporta a revelação de que se trata de outro. Isso é conflito. Em Viver, Watanabe (Takashi Shimura) esbalda-se em uma boate. Até aí, nada de doloroso. Sabemos, porém, que um câncer lhe deixa pouco tempo de vida. Sua atitude expansiva toma imediatamente conotação conflituosa.

CONFLITO E PERSPECTIVA DE CONFLITO

Tomemos duas pessoas ao acaso, Alfred Hitchcock e François Truffaut, por exemplo, sentados a uma mesa, conversando. Truffaut chama a atenção de Hitchcock para o fato de dois de seus filmes, O Sr. e a Sra. Smith e Waltzes from Vienna, não apresentarem nenhum interesse. Hitchcock responde: “Concordo inteiramente.”. Eis uma cena absolutamente sem conflito. Suponhamos, entretanto, que uma bomba esteja escondida sob a mesa, fato ignorado pelos dois cineastas. Esse detalhe adiciona conflito à cena, ‘concordaremos inteiramente’. E, no entanto, os dois personagens continuam a conversar tranqüilamente, com opiniões concordantes e sem viver nenhum conflito, exclusivo dos espectadores da cena. Nesse caso, o que existe é a perspectiva de conflito.

A INFORMAÇÃO DO ESPECTADOR

Esses exemplos evidenciam o quanto é necessário informar corretamente o espectador. Se ignorarmos que há uma bomba sob a mesa, não nos interessaremos pela sorte dos personagens. Se desconhecermos a paixão de Cyrano por Roxane, não compartilharemos sua decepção amorosa. Se não soubermos que Watanabe está gravemente doente, veremos, talvez sem grande interesse, um homem que se diverte.

Em alguns casos, os personagens não vivem nem conflito e nem perspectiva de conflito. As obras que se apóiam na nostalgia, por exemplo, geram emoção no espectador, e é essa emoção que tem natureza conflituosa. Velhacos aproveitando plenamente a vida, como em Cocoon, nos remetem à tristeza da condição humana. Eles não vivem verdadeiramente nenhum conflito, mas nos fazem viver um.

Resumindo, e retornaremos com freqüência a esse ponto, o espectador é parceiro fundamental do processo dramatúrgico, e é por intermédio dele que o conflito ou sua perspectiva devem ser prioritariamente experimentados. Essa parceria tem uma ótima razão de ser: a dramaturgia tem o poder de fazer os espectadores sentirem uma ou várias emoções, produzidas pelo conflito e produtoras de conflitos.

Conflito e dramaturgia, naturalmente, não são os únicos elementos a suscitar emoção. Não há dramaturgia na pintura ou na música, e elas podem nos emocionar – tanto quanto um encadeamento de planos ou a performance do ator. Vários outros aspectos podem provocar a emoção do espectador. É fundamental compreender que nada disso é incompatível. Podemos perfeitamente aliar uma linguagem fílmica possante a uma direção artística impecável, sem nos privar de uma construção dramática eficaz. Psicose, Janela indiscreta e Cidadão Kane o demonstram brilhantemente.

O INTERESSE DO CONFLITO

É provável que o conflito se encontre no eixo do drama porque está no eixo da própria vida, que a dramaturgia imita. Poderíamos mesmo avançar que é o conflito ou sua perspectiva que anima os seres, os humanos incluídos, cujas ações primárias têm por objetivo evitar fome, frio e dor, física e mental.

“Existe uma incrível unidade no infortúnio humano”, declarou Sebastião Salgado, que, ao longo de mais de 25 anos, fotografou o planeta inteiro. Howard Bloom demonstra que o mal, a violência e a competição brutal estão inscritos em nosso cérebro reptiliano, ou seja, existem no mais profundo de todos os seres humanos, de todas as culturas e civilizações, incluídas as primitivas, sobre as quais é equivocadamente projetada a imagem idílica de bons selvagens vivendo em harmonia com a natureza, ela mesma cruel e fornecedora de conflitos os mais variados.

Isso dito, se o conflito é fonte de sofrimento a curto prazo, ele pode acarretar conseqüências positivas. Em todo conflito existe o germe da infelicidade e da destruição, mas igualmente aquele da união, da compreensão e do enriquecimento. O conflito faz avançar o mundo; contribui para nos fazer crescer. Se, por exemplo, ajudamos uma borboleta a sair de seu casulo, podemos livrá-la de uma dificuldade, é verdade. Mas a privamos de um esforço (conflito) que faz com que determinado líquido se espalhe sobre suas asas, tornando-as mais firmes. Nossa borboleta “mimada”, diferente de todas as demais, não conseguirá voar e logo será devorada. O conflito é, portanto, fonte de vida, talvez a grande e única fonte de vida. É certo que a busca do prazer é igualmente possante motor para os seres vivos. Admitindo, entretanto, que prazer e dor existem sobre o mesmo eixo, um de cada lado, veremos que buscar o prazer equivale a escapar da dor, ou seja, aí também é o conflito (ou sua perspectiva) que nos motiva.

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