Protagonista e Objetivo

Quatro Condições Essenciais

(fragmentos da edição inédita em Português de A DRAMATURGIA, de Yves Lavandier)

Estabelecer um objetivo único para o protagonista não seria, em princípio, suficiente para garantir a eficácia de uma construção narrativa.
Seria igualmente fundamental:

1- Que este objetivo fosse conhecido, ou ao menos percebido, pelo espectador, sem muito tardar, no começo da narrativa.

Enquanto o espectador não for capaz de pressentir, mais ou menos conscientemente, o desejo/necessidade do protagonista, a ação não terá sido instalada e o ele se manterá alheio à história, sensação apenas suportável em curto prazo.

Esta primeira condição impõe ao autor a necessidade de que o objetivo do protagonista esteja claramente definido já em seu próprio espírito. Ainda que se opte por navegar em um certo nível de mistério, não há como se construir uma narrativa rigorosa, sem saber para onde a ação se encaminha;

2- Que o objetivo estivesse ancorado em alguma motivação.

O protagonista deve ser capaz de compartilhar seu desejo com o espectador. Se este último não for capaz de compreender – sem necessariamente aprovar – o objetivo do protagonista, nada estará em jogo em seu espírito e não haverá suspense;

3- Que, através da ação, se revelasse particularmente difícil ao protagonista, atingir seu objetivo. Isso, contudo, sem torná-lo uma “missão impossível”. Uma das grandes dificuldades do ofício do autor dramático é saber dosar os obstáculos;

4- Que o protagonista fosse movido por um desejo intenso e irresistível de atingir seu objetivo. Evitar a impressão de que o protagonista possa “deixar para lá” a qualquer momento. Ou a de que, para ele, “tanto faz”.

Quanto mais o protagonista quer, mais o espectador se envolve com a sua história.

Pensemos em Antígona, prestes a arriscar sua própria vida para oferecer uma sepultura digna a seu irmão.

Em Galileu, que afronta a Terra inteira (e mesmo a peste), tamanho é o seu desejo de saber e de provar sua ciência.

Em Batista, em o Boulevard do Crime, que é jogado pela janela por Avril e que retorna pela porta – em geral, os insistentes costumam fazer o contrário: os fazemos sair pela porta, e eles voltam pela janela.

Em Ethan (John Wayne), em Rastros de Ódio, que percorre o velho oeste americano durante 15 anos para reencontrar sua sobrinha.

Em McMurphy (Jack Nicholson), em Um Estranho no Ninho, que tem tanta vontade de assistir a um jogo de beisebol, a ponto de inventar uma partida imaginária diante de uma tela escura.

Em Ahmad (Babak Ahmadpoor), em Onde é a Casa do Amigo?, que pede à sua mãe até que ela ceda e o deixe sair.

Em Gabrielle (Eva Longoria), no primeiro episódio de Desperate housewives, que corta sua grama a meia-noite, de vestido longo, para impedir seu marido de descobrir que ela transa com o jardineiro.

Certas obras dramáticas podem deixar o espectador frustrado, na medida em que seus protagonistas não fazem o máximo que podem, para atingir seus objetivos. Como esperar que o espectador torça pelo protagonista, se o próprio não se investe no que deseja. Em outras palavras: se essa ação, principal, não importa muito para os personagens, por que importaria para o espectador?

É a razão do fracasso de Agente Secreto.

Hitchcock explica: «Eu penso saber por que o filme não foi bem sucedido. Em um filme de aventuras, o personagem principal deve ter uma meta. Isso é vital para a evolução da história e para a participação do público que deve apoiar o personagem e, eu diria, quase ajudá-lo a atingir seu objetivo. Em Agente Secreto, o herói tem uma tarefa a realizar, a de matar alguém, mas esta tarefa lhe causa horror e ele evita cumpri-la de todas as maneiras.»

Na verdade, poderíamos arriscar dizer que o protagonista de Agente Secreto possui dois objetivos contraditórios: o primeiro, matar alguém, imposto por seus superiores; o segundo, escapar desta tarefa.

Infelizmente para a eficácia do filme, falta tensão ao primeiro objetivo. E o segundo, não é tratado.

Agente Secreto faz parte dessas obras nas quais uma missão é confiada a um personagem (frequentemente um soldado, um policial, um espião ou um detetive). Para que esse tipo de obra funcione, seria necessário que o futuro protagonista fosse motivado pela missão em si e que se apropriasse do objetivo que lhe é dado.

Como conclusão, a de que um protagonista deve ser, sobretudo, ativo. Eventualmente, reativo. Mas nunca passivo. E seu objetivo deve dar a impressão de se tornar, a cada cena, e, cada vez mais, uma idéia fixa, uma missão, uma necessidade irrefutável ou uma fatalidade.

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